Num momento em que a transformação digital acelera a redefinição das competências exigidas pelo mercado de trabalho e a escassez de talento qualificado nas áreas tecnológicas se agrava, o ensino superior é chamado a reinventar-se.
Em Viseu, o Piaget avançou com a criação da nova Escola Superior de Tecnologia e Gestão, uma aposta estratégica que pretende responder às necessidades emergentes das empresas e reforçar a ligação entre academia, inovação e tecido económico.
Em entrevista à Executive Digest, Helena Chéu, diretora da nova escola, explica as razões por detrás deste projeto, as áreas prioritárias de formação e a ambição de posicionar a instituição como um polo de desenvolvimento tecnológico e de retenção de talento no interior do país.
O que motivou a criação da nova Escola Superior de Tecnologia e Gestão do Piaget em Viseu neste momento em particular?
A criação da Escola Superior de Tecnologia e Gestão do Piaget em Viseu resulta de uma visão estratégica orientada para responder a lacunas concretas de oferta formativa e das necessidades emergentes do tecido económico e empresarial.
Nos últimos anos, identificámos uma insuficiência de oferta formativa graduada e pós-graduada especializada em áreas distintas, nomeadamente nas ciências aeronáuticas e informáticas. Estas áreas, assumem hoje, um papel determinante na transformação digital, na inovação industrial e na competitividade dos territórios.
Viseu e o território envolvente apresentam um potencial crescente de desenvolvimento nestes domínios, mas careciam de uma resposta de ensino superior diferenciadora que pudesse reter talento, atrair novos estudantes e contribuísse para a qualificação avançada dos recursos humanos. Foi precisamente esta necessidade que motivou a criação desta Escola.
Mais do que uma nova escola, pretendemos afirmar-nos como um ecossistema de conhecimento aplicado, fortemente ligado às empresas e às dinâmicas regionais, capaz de preparar profissionais altamente qualificados para os desafios atuais e futuros.
Que lacunas identificaram que justificaram o lançamento desta nova escola?
A criação da escola assenta na identificação de necessidades claras ao nível da oferta formativa especializada, particularmente em áreas de forte crescimento e elevada procura no mercado de trabalho.
Destacamos, desde logo, a falta de formação graduada e pós-graduada nas áreas das ciências aeronáuticas e das tecnologias, incluindo domínios emergentes como a cibersegurança, a inteligência artificial e a transformação digital. Estas áreas são hoje determinantes para a competitividade das empresas e para a modernização dos territórios, mas continuam a apresentar uma resposta formativa limitada, sobretudo no interior do país.
Destaca-se uma necessidade ao nível da proximidade entre o ensino superior, a inovação e a aplicação prática, sendo fundamental promover modelos formativos mais orientados para a resolução de problemas concretos, para o desenvolvimento de competências técnicas avançadas e para a ligação direta ao tecido empresarial.
Assim, esta nova escola surge para oferecer uma formação diferenciadora, especializada e alinhada com as exigências atuais e futuras do mercado, contribuindo simultaneamente para a valorização do território e para a fixação de jovens qualificados.
De que forma a crescente transformação digital das empresas está a mudar aquilo que os estudantes procuram no ensino superior?
A transformação digital está a provocar uma mudança profunda nas expectativas e nas escolhas dos estudantes relativamente ao ensino superior.
Os estudantes procuram cada vez mais formações com forte relevância prática e ligação direta ao mercado de trabalho, privilegiando cursos que lhes garantam competências com aplicação em contextos reais e com elevada empregabilidade. Existe uma consciência crescente de que a tecnologia está no centro de praticamente de todos os setores de atividade, o que leva a uma maior procura por áreas como a inteligência artificial, a análise de dados, a cibersegurança e a engenharia informática.
Por outro lado, verifica-se uma valorização clara de percursos formativos mais flexíveis, atualizados e especializados, que acompanhem a rápida evolução tecnológica. Os estudantes procuram um conjunto de competências que lhes permita a adaptação contínua a novos desafios profissionais.
A transformação digital das empresas também tem reforçado a importância das competências híbridas, que combinam conhecimento técnico com capacidades como pensamento crítico, resolução de problemas, trabalho em equipa e adaptação à mudança.
Adicionalmente, há uma expectativa crescente de que o ensino superior ofereça experiências de aprendizagem mais dinâmicas e abrangentes, com recurso a laboratórios, projetos aplicados, estágios e contacto direto com empresas e contextos reais de inovação (centros de inovação tecnológicos).
Os estudantes procuram instituições que transmitam conhecimento, que os preparem para profissões num mundo em rápida transformação, o que exige uma resposta académica mais rápida, alinhada com as necessidades do tecido empresarial e orientada para o futuro.
Hoje fala-se muito da escassez de talento nas áreas tecnológicas. O ensino superior está a conseguir acompanhar o ritmo das necessidades do mercado?
A realidade é clara: o ensino superior tem evoluído, mas poderá não estar na totalidade a acompanhar o ritmo acelerado da transformação tecnológica.
A escassez de talento nas áreas digitais pode resultar, em grande parte, de um desfasamento entre aquilo que é ensinado e aquilo que as empresas efetivamente precisam. Não se trata apenas de formar mais pessoas, mas de formar melhor, com competências atualizadas, especializadas e aplicáveis em contextos reais.
É precisamente neste ponto que a Escola Superior de Tecnologia e Gestão do Piaget em Viseu se posiciona de forma diferenciadora. Apostamos numa lógica de proximidade ao tecido empresarial, numa atualização contínua dos conteúdos programáticos e numa forte componente prática, que permite aos estudantes desenvolver competências alinhadas com os desafios atuais e futuros.
Mais do que acompanhar o mercado, o nosso objetivo é contribuir para antecipar tendências e formar profissionais capazes de liderar a transformação tecnológica, e não apenas a sua adaptação.
Quais serão as áreas de formação prioritárias desta nova escola e porquê essas escolhas estratégicas?
A escola está direcionada para a aprendizagem e aquisição de competências com vista à empregabilidade nas áreas das Tecnologias, Ciências Aeronáuticas e Gestão, com especial enfoque na região abrangida pelo distrito de Viseu. Pretende organizar e ministrar, além de ciclos de estudos de ensino superior politécnico, vários CTeSP nessas áreas, respondendo a necessidades concretas do mercado e à evolução dos setores estratégicos.
Estas escolhas resultam de uma análise das necessidades atuais e futuras do mercado de trabalho, bem como das oportunidades estratégicas para o desenvolvimento da região.
Por um lado, a Engenharia Informática assume-se como um pilar fundamental da economia digital, estando presente de forma transversal em praticamente todos os setores de atividade. A crescente procura por competências em desenvolvimento de software, cibersegurança, inteligência artificial e análise de dados justifica uma aposta clara nesta área.
Por outro lado, a Engenharia Aeronáutica constitui uma área altamente especializada e ainda com oferta limitada a nível nacional, sobretudo fora dos grandes centros urbanos. Trata-se de um setor com elevado potencial de crescimento, associado à inovação tecnológica, à mobilidade e às novas soluções no domínio da aviação e dos sistemas aeronáuticos.
Ao nível das pós-graduações, optámos por áreas altamente diferenciadoras e alinhadas com tendências emergentes. A digital forense responde ao aumento significativo das ameaças digitais e à necessidade de investigação e segurança informática. A transformação digital reflete o processo de mudança que atravessam as organizações públicas e privadas. A governação local surge como resposta à crescente complexidade da gestão territorial e à necessidade de modernização das autarquias. Já a componente de software aeronáutico complementa a aposta na área da aeronáutica, reforçando a especialização técnica e a inovação.
E, para além disso, na área das Ciências Aeronáuticas, a escola criou dois Cursos Técnicos Superiores Profissionais (CTeSP): Reparação e Manutenção de Aeronaves e Operações com Aeronaves não Tripuladas. Trata-se de uma aposta alinhada com a evolução do setor, com a expansão da indústria aeroespacial portuguesa, com o aumento de oportunidades de emprego e com a necessidade crescente de profissionais qualificados em áreas como manutenção, operações, drones, sistemas de comunicação e novas tecnologias. É uma resposta concreta a um setor estratégico e em expansão, com impacto nacional, mas também com forte potencial de desenvolvimento regional.
Na área das Ciências Informáticas criámos dois CTeSP, em Cibersegurança e em Desenvolvimento de Videojogos e Aplicações Multimédia, com possibilidade de diversificação nos anos subsequentes em função das necessidades formativas locais e das parcerias a desenvolver.
Na globalidade, estas áreas traduzem uma estratégia clara, formar profissionais altamente qualificados em domínios específicos, com elevada empregabilidade e forte impacto no desenvolvimento económico e tecnológico da região e do país.
Como pretendem equilibrar competências tecnológicas com competências de gestão e liderança, cada vez mais valorizadas pelas empresas?
O equilíbrio entre competências tecnológicas e competências de gestão e liderança é essencial e está no centro do nosso modelo formativo.
Na Escola Superior de Tecnologia e Gestão do Piaget em Viseu, partimos do princípio de que o domínio tecnológico, por si só, já não é suficiente. As empresas procuram profissionais capazes não apenas de desenvolver soluções tecnológicas, mas também de liderar equipas, gerir projetos e tomar decisões em contextos complexos e em constante mudança.
Nesse sentido, os nossos planos de estudo foram idealizados de forma integrada, combinando uma formação tecnológica consistente com o desenvolvimento de competências transversais, como pensamento crítico, comunicação, trabalho em equipa e liderança.
Além da componente curricular, valorizamos práticas pedagógicas que reforçam este equilíbrio, nomeadamente: o desenvolvimento de projetos aplicados em contexto real, o trabalho em equipa multidisciplinar, a interação direta com empresas e profissionais do setor e a simulação de desafios empresariais e tecnológicos.
Ao nível dos cursos pós-graduados, essa integração é ainda mais evidente, cruzando tecnologia com áreas como a governação, a estratégia e a inovação organizacional.
O nosso objetivo é formar profissionais tecnicamente diferenciados, preparados para assumir funções de responsabilidade, liderança e transformação nas organizações.
A ligação ao tecido empresarial será uma prioridade? Que tipo de parcerias pretendem desenvolver com empresas locais e nacionais?
Sim, a ligação ao tecido empresarial é uma prioridade. Atualmente, já estabelecemos diversos protocolos para o desenvolvimento da atividade académica da escola, incluindo programas de estágios curriculares e profissionais, desenvolvimento conjunto de projetos de investigação, inovação e transferência de conhecimento, bem como participação em seminários, workshops e eventos académicos. Ao nível das ciências aeronáuticas, contamos já com parcerias com entidades como a Ryanair, a IFA, a Novacable, a NAC e a Agromontiar. Na área informática, existem também parcerias com empresas e entidades como a TWOPLAY, a TOMI Portugal, a Trustvision, a Antsoft, a Ferreira Soares Consulting, a Kernel, a Mentes Fulgurantes, os municípios de Viseu, Castro Daire e Mangualde, a Two Ticket, Openlimits – Business Solutions, SA e a CleverTime Consulting. Esta rede é fundamental porque aproxima a escola da realidade económica, reforça a empregabilidade e permite construir formação mais ajustada às necessidades concretas do mercado.
Mas mais do que o número ou a notoriedade das instituições parceiras, o que valorizamos é a qualidade e o estreitamento destas relações, que procuramos tornar verdadeiramente colaborativas e orientadas para resultados concretos.
Esta rede é fundamental porque aproxima a escola da realidade económica e empresarial, reforça a empregabilidade dos nossos estudantes e permite construir uma oferta formativa mais ajustada às necessidades reais do mercado.
Adicionalmente, pretendemos que estas parcerias evoluam para modelos ainda mais integrados, nomeadamente através de laboratórios colaborativos, projetos alinhados com as empresas e participação na definição de conteúdos programáticos, garantindo uma resposta ainda mais rápida e alinhada com os desafios do futuro.
Ainda existe um desfasamento entre academia e mercado de trabalho?
Sim, esse desfasamento ainda existe, embora hoje seja mais reconhecido e, progressivamente, mais trabalhado.
Apesar da evolução significativa do ensino superior nos últimos anos, continua a verificar-se, em vários casos, uma diferença entre os conteúdos e modelos de ensino e as competências que o mercado de trabalho exige no imediato. Esta realidade resulta, em grande parte, da própria natureza da organização académica, que é mais estruturada e menos ágil face à rapidez com que evolui a tecnologia, os modelos de negócio e as necessidades das empresas.
No entanto, mais do que um problema estrutural, este desfasamento deve ser visto como um desafio de adaptação contínua.
A resposta passa, cada vez mais, por uma maior proximidade entre as instituições de ensino e as empresas, a atualização constante dos currículos, a integração de metodologias práticas e aplicadas e o reforço de experiências em contexto real, como projetos, estágios e colaboração com o tecido empresarial.
Na Escola Superior de Tecnologia e Gestão do Piaget em Viseu, assumimos este desafio de forma clara. Procuramos reduzir esse desfasamento através de uma abordagem mais flexível, orientada para competências e alinhada com necessidades concretas do mercado.
O nosso objetivo é antecipar as tendências e formar profissionais preparados não apenas para o primeiro emprego, mas para carreiras em contínua transformação.
O interior do país continua a enfrentar dificuldades na retenção de jovens qualificados. Esta escola pode ajudar a inverter essa tendência?
A retenção de jovens qualificados no interior é, de facto, um dos grandes desafios estruturais do país, mas é também uma oportunidade para repensar o papel do ensino superior no desenvolvimento dos territórios.
Acreditamos que esta escola pode, claramente, contribuir para inverter essa tendência. Desde logo, ao oferecer formação diferenciadora e altamente especializada, em áreas com elevada procura no mercado de trabalho, estamos a criar condições para que os jovens possam construir percursos profissionais qualificados sem necessidade de sair da região.
É fundamental garantir que os estudantes encontrem, no território, oportunidades reais de desenvolvimento profissional. Por isso, a nossa estratégia assenta também numa forte ligação ao tecido empresarial e institucional, promovendo estágios curriculares e profissionais, projetos aplicados e parcerias que reforcem a empregabilidade local.
Em simultâneo, ao apostar em áreas como a tecnologia, aeronáutica e gestão, estamos a contribuir para elevar o posicionamento da região, tornando-a mais atrativa não só para estudantes, mas também para investimento e inovação.
Importa ainda sublinhar que os jovens valorizam cada vez mais a qualidade de vida, e nesse sentido, Viseu é considerada uma cidade de excelência, a proximidade e o equilíbrio pessoal, dimensões onde o interior pode ser altamente competitivo, se articulado com oportunidades profissionais qualificadas.
Mais do que fixar jovens, o nosso objetivo é criar as condições para que escolham ficar, transformando o interior num espaço de oportunidade, inovação e futuro.
Portugal tem conseguido formar talento, mas continua a perder muitos jovens para o estrangeiro. O que falta fazer para fixar talento qualificado no país?
Portugal tem, de facto, uma capacidade reconhecida de formar talento de elevada qualidade e o desafio não está na formação, mas sim na criação de condições para a retenção desse talento.
Fixar jovens qualificados exige uma abordagem integrada, que vá muito além do ensino superior. Desde logo, é fundamental garantir oportunidades profissionais atrativas, com projetos bem estruturados, perspetivas de progressão e níveis de remuneração competitivos face ao contexto internacional.
Mas existem outros fatores igualmente decisivos. A retenção de talento passa por fortalecer um ecossistema de inovação mais dinâmico, onde empresas, universidades e entidades públicas trabalhem de forma articulada, criando ambientes favoráveis, criativos e geradores de valor.
É também essencial apostar na descentralização de oportunidades, levando emprego qualificado e investimento para fora dos grandes centros urbanos. Os jovens não saem apenas do país, muitas vezes, saem da sua região por falta de alternativas. Criar polos de desenvolvimento no interior, associados a áreas estratégicas como a tecnologia ou a aeronáutica, é um passo determinante.
Por outro lado, importa valorizar cada vez mais fatores como a qualidade de vida, a estabilidade e o equilíbrio pessoal e profissional, onde Portugal tem vantagens claras, mas que precisam de ser acompanhadas por condições económicas e profissionais consistentes.
No que respeita ao ensino superior, o papel é igualmente fundamental, formar com qualidade, mas também aproximar os estudantes das empresas, promover o empreendedorismo e estimular a criação de projetos com potencial de fixação no território.
Na escola, acreditamos que a resposta passa precisamente por essa combinação, formação especializada, ligação ao tecido empresarial e valorização do território.
Como imagina esta escola daqui a cinco ou dez anos? Qual é a ambição do Piaget para este projeto?
Imagino uma escola em crescimento sólido, com oferta formativa reforçada, projetos tecnológicos e de gestão alinhados com as necessidades da região e do país, e uma ligação cada vez mais forte entre a escola, as empresas, a comunidade e os setores emergentes da economia. Vejo o futuro desta escola como um espaço de construção, inovação e liderança partilhada. Acredito que este será um ciclo marcado pela consolidação, pela modernização e pelo desenvolvimento de projetos com impacto real no território. Pretendemos contribuir para que a Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Viseu se afirme como uma referência nacional, com visão estratégica, sentido de missão e capacidade de responder ao futuro com qualidade e proximidade, tornando a escola uma referência num ensino orientado para o futuro: mais digital, mais sustentável, mais próximo das pessoas e das organizações e capaz de atrair estudantes não só da região, mas de todo o país e até do estrangeiro. Mais do que transmitir conhecimento, esta escola deve formar pessoas capazes de intervir com qualidade, responsabilidade e visão no mundo profissional e na sociedade.
Ambicionamos, também, reforçar a dimensão da investigação e da inovação aplicada, promovendo projetos em colaboração com empresas e entidades públicas, capazes de gerar impacto direto na economia e na sociedade.
Outro objetivo essencial passa pela afirmação de Viseu como um território de oportunidade nas áreas tecnológicas, contribuindo para a atrair e fixar talento qualificado.
O nosso compromisso é construir uma escola que seja reconhecida pela sua capacidade de antecipar tendências, formar profissionais preparados para o futuro e contribuir ativamente para o desenvolvimento sustentável da região e do país.



