O acesso ao ensino superior continua a ser um dos principais factores de empregabilidade e autonomia para pessoas com deficiência. Numa altura em que as mudanças nos critérios de acesso levantam preocupações junto de diferentes actores do sector, Rui Tomás, vice-presidente do Piaget, defende que a inclusão começa muito antes da entrada no mercado de trabalho, apela a uma maior preparação das organizações para acolher a diversidade e sublinha que uma sociedade que desperdiça talento é, inevitavelmente, uma sociedade mais pobre.
As recentes alterações no acesso ao ensino superior para estudantes com deficiência têm gerado preocupação. Que impacto pode esta realidade ter, a médio e longo prazo, na inclusão profissional destas pessoas?
A inclusão profissional começa muito antes da entrada no mercado de trabalho. Começa no acesso à educação, na possibilidade de qualificação e nas condições que cada estudante encontra para desenvolver o seu percurso.
Se forem criadas barreiras adicionais no acesso ao ensino superior, o impacto pode ser significativo a médio e longo prazo. Podemos estar a limitar o número de pessoas qualificadas, a reduzir oportunidades profissionais e a perpetuar desigualdades que a educação deveria ajudar a combater.
É fundamental que exista rigor, naturalmente, mas o rigor não pode ser confundido com exclusão. O sistema deve ser exigente, mas também sensível à diversidade das situações e dos percursos.
De que forma o acesso ao ensino superior continua a ser um factor determinante para a empregabilidade de pessoas com deficiência?
O ensino superior continua a ser uma das formas mais consistentes de promover autonomia, qualificação e empregabilidade. Permite adquirir competências técnicas, mas também desenvolver confiança, pensamento crítico, capacidade de comunicação e adaptação a contextos profissionais exigentes.
No caso das pessoas com deficiência, esta dimensão é ainda mais importante, porque a qualificação pode abrir portas que, de outra forma, permanecem fechadas. O diploma não resolve todos os obstáculos, mas aumenta claramente as oportunidades de integração e progressão profissional.
Existe ainda uma relação directa entre níveis de qualificação e oportunidades de integração no mercado de trabalho neste grupo? Como se manifesta?
Sim, existe uma relação clara, embora não seja automática. A qualificação aumenta o acesso a funções mais diferenciadas, melhora as condições de empregabilidade e reforça a capacidade de progressão.
Mas é importante sublinhar que não basta qualificar as pessoas. É também necessário preparar as organizações para reconhecer competências, adaptar contextos e criar ambientes verdadeiramente inclusivos. A responsabilidade não pode estar apenas do lado de quem procura integrar-se.
Que principais barreiras persistem na transição entre o percurso académico e a entrada no mercado de trabalho para estes profissionais?
Persistem barreiras físicas, tecnológicas, organizacionais e culturais. Algumas são evidentes, como a falta de acessibilidade em espaços ou plataformas. Outras são mais silenciosas, como o preconceito, a baixa expectativa sobre as capacidades da pessoa ou a falta de preparação das empresas.
A transição para o mercado de trabalho exige acompanhamento. Não basta abrir uma oportunidade; é necessário garantir que existem condições para que a pessoa possa demonstrar o seu valor, integrar-se na equipa e evoluir profissionalmente.
Qual o papel das instituições de ensino superior na criação de condições efectivas de igualdade de oportunidades para estudantes com deficiência?
As instituições de ensino superior têm uma responsabilidade central. Não são apenas espaços de transmissão de conhecimento, são também espaços de desenvolvimento humano, social e profissional.
Criar igualdade de oportunidades implica garantir acessibilidade, apoio pedagógico, acompanhamento psicopedagógico, formação de docentes e respostas ajustadas às necessidades dos estudantes. Tratar todos da mesma forma nem sempre significa justiça. Por vezes, é preciso adaptar para garantir oportunidades equivalentes.
Para além do acesso, que medidas são essenciais para garantir sucesso académico e uma verdadeira integração destes estudantes?
O acesso é apenas o primeiro passo. Depois é preciso garantir permanência, sucesso académico e integração real na comunidade.
Isso passa por acolhimento adequado, acompanhamento próximo, apoio emocional, adaptações pedagógicas quando necessário, acessibilidade física e digital, e uma cultura institucional preparada para lidar com a diversidade.
Também é essencial formar docentes e equipas. A inclusão faz-se nas políticas, mas sobretudo nas práticas diárias.
O Piaget tem desenvolvido trabalho relevante nas áreas da inclusão e inovação social. Que iniciativas destacaria neste domínio?
A inclusão faz parte da matriz do Piaget e está presente, há muito, na forma como olhamos para a educação, a formação e a intervenção nas comunidades.
Destacaria, desde logo, o trabalho desenvolvido há décadas no ensino pós-graduado na área da Educação Especial, nas suas diferentes vertentes, contribuindo para a formação contínua de profissionais que intervêm directamente com crianças, jovens e adultos com necessidades específicas.
Destacaria também o trabalho do Centro de Investigação do Piaget, a integração na European Association of Service Providers for Persons with Disabilities e projectos como o Supera-te e o ConcentrArte, que reforçam a ligação entre investigação, inovação social, bem-estar e sucesso académico.
No fundo, procuramos que a inclusão não seja apenas um princípio, mas uma prática concreta, presente na formação, na investigação e na relação com as comunidades.
Como é que a ligação entre ensino, investigação e intervenção no terreno pode contribuir para melhorar a inclusão profissional?
Essa ligação é essencial. O ensino superior não pode estar desligado da realidade. Quando juntamos ensino, investigação e intervenção no terreno, conseguimos compreender melhor os problemas, testar soluções e formar profissionais mais preparados.
Na área da inclusão, esta articulação permite identificar barreiras reais, apoiar transições para o mercado de trabalho, criar parcerias com empresas e desenvolver respostas mais ajustadas às necessidades das pessoas e das organizações.
Do lado das empresas, o que continua a faltar para que se criem ambientes de trabalho mais inclusivos e acessíveis?
Continua a faltar, em muitos casos, uma mudança cultural. A inclusão não deve ser vista apenas como cumprimento legal ou responsabilidade social. Deve ser entendida como parte da gestão das pessoas e da qualidade das organizações.
Falta também preparação. Muitas empresas querem ser mais inclusivas, mas não sabem como adaptar processos, funções, equipas ou formas de acompanhamento. A inclusão exige intenção, mas também conhecimento, planeamento e compromisso.
Que práticas concretas podem as organizações implementar para potenciar a integração, desenvolvimento e progressão de carreira de pessoas com deficiência?
As organizações podem começar por rever os processos de recrutamento, garantindo que são acessíveis e centrados nas competências. Devem também preparar lideranças e equipas, assegurar ajustamentos razoáveis e criar planos de integração acompanhados.
É igualmente importante garantir oportunidades de formação e progressão. A inclusão não termina na contratação. Mede-se pela permanência, pelo desenvolvimento profissional e pela possibilidade real de carreira.
Ouvir as pessoas é também fundamental. Muitas soluções são simples, mas só surgem quando há diálogo.
A integração do Piaget na European Association of Service Providers for Persons with Disabilities reforça uma dimensão europeia. Que boas práticas internacionais podem ser inspiradoras para Portugal neste domínio?
A dimensão europeia permite-nos aprender com experiências consolidadas e participar em redes de conhecimento, investigação e intervenção.
Há práticas internacionais muito relevantes na articulação entre educação, formação, serviços de apoio, empresas e políticas públicas. A inclusão exige respostas integradas e não medidas isoladas.
A participação na EASPD permite ao Piaget reforçar esta dimensão colaborativa, trazer boas práticas para o contexto nacional e contribuir também com a sua experiência académica, científica e social.
Num momento em que tanto se fala de diversidade e inclusão, considera que Portugal está, de facto, a criar condições para que mais pessoas com deficiência possam aceder a percursos de qualificação e, consequentemente, a oportunidades profissionais sustentáveis?
Portugal tem feito progressos, mas ainda existe distância entre o discurso e a prática. Fala-se mais de diversidade e inclusão, o que é positivo, mas é necessário garantir que esse discurso se traduz em medidas concretas, recursos e acompanhamento.
No acesso ao ensino superior, qualquer alteração que possa criar obstáculos adicionais deve ser analisada com muita atenção. Falamos de pessoas com percursos, capacidades e necessidades muito diferentes, e o sistema deve ser rigoroso, mas também justo.
A inclusão não pode ser vista como excepção. Deve ser uma condição normal de uma sociedade democrática, desenvolvida e preparada para o futuro. Uma sociedade que desperdiça talento é sempre uma sociedade mais pobre.



