A liberdade está a passar por aqui
As rugas de Daniel Ricardo, nascido em 1941, transmitem sinais de muita experiência, experiência essa que já conta com mais de 40 anos. A atividade jornalística surgiu como "uma coisa natural, desde miúdo que fazia jornais", e a licenciatura em Direito ficou para trás. A paixão pelo jornalismo falou mais alto e, em 1968, foi convidado para a Capital. " A partir daí a minha vida tem sido nos jornais", afirma
Na década de 70, alvo de perseguição pessoal pela censura, começou a assinar textos com um pseudónimo, afinal "só o Daniel Ricardo é que não podia escrever, o tal Caldas já podia." Apesar de admitir que chegou a se autocensurar, sempre pensou em escrever para os leitores e não para os censores.
Na noite de 25 de Abril de 1974, já ocupava a função de chefe adjunto de redação. A chamada que o alertava para a agitação militar nas ruas de Lisboa foi entendida, inicialmente, como uma partida. "Quando me ligaram a segunda vez é que vi que era verdade, corro para a porta, cheio de sono, e a minha mulher é que me diz: - 'Oh homem veste-te' ". Chegado à redação, após recolher todas as informações, teve uma das decisões mais difíceis da sua carreira – não enviar os textos para a censura. O resto é história...
OS CONDICIONAMENTOS RUSSOS
José Milhazes, 53 anos, tem presente o fuso horário russo no pulso. Jornalista correspondente da Lusa, conta com mais de 20 de experiência e ainda se lembra do dia em que escreveu a sua primeira peça de rádio. "Foi a 8 de Agosto de 1989, ainda existia a antiga União Soviética". Uma altura em que se vivia num período de transição, do regime totalitário para regime democrático, com muitas limitações à informação. Não existiam televisões privadas e as rádios tinham um raio de emissão muito limitado.
A norma era evitar noticiar determinados tipos de informações. Exemplo disso foi quando o regime soviético escondeu da opinião pública as dimensões da catástrofe na central nuclear de Chernobyl, em Abril de 1986. "Foi um exemplo muito flagrante de como se trabalhava no jornalismo soviético."
A distância entre Lisboa e Moscovo dificultava a circulação de informação, e ainda mais o trabalho deste jornalista. "Se queria mandar uma notícia urgente para Lisboa tinha de pedir à telefonista, e dependia da sua disposição". Podia demorar poucas horas ou dias.
Embora atualmente exista uma lei de imprensa bastante avançada na Rússia, o nível de vida das pessoas e as dimensões do país condicionam a receção de informação dos meios de comunicação social. Apenas a televisão, sob o domínio do Estado, chega a todos, o que significa que as forças políticas controlam o campo informativo, direta ou indiretamente. O poder político não admite a presença, em emissões televisivas, de figuras da oposição e quem "não aparece na televisão tem grande dificuldade em chegar à opinião pública". Existem jornalistas encarregados de liquidar politicamente alguém, chamados "killers informativos", que preparam programas com informações adulteradas, para prejudicar politica e moralmente o adversário.
AS PRESSÕES À LIBERDADE
Jornalista da Visão há 13 anos, Paulo Pena, começou na área política por opção. Embora admita que o acesso às fontes é difícil e condicionado, ao contrário do que se pensa, não é das áreas que sofre mais pressões. "Acho que as coisas na política são mais transparentes do que na economia ou no desporto, onde as pressões são muito vincadas".
Pena, 37 anos, considera que "numa democracia como a nossa, é normal que os vários poderes tentem condicionar a liberdade de Imprensa, o que representa um sinal de falta de maturidade democrática". Quanto maior for a dificuldade que a imprensa tem em suportar custos, mais poder sobra para os grupos económicos que, muitas vezes, tentam decidir quais as matérias publicadas, comprometendo a liberdade editorial. "O poder dos anunciantes é cada vez maior e têm a chave da nossa sobrevivência".
Quando questionado sobre o futuro da liberdade da imprensa, mostra-se preocupado, "uma crise económica enfraquece a democracia". As dificuldades económicas obrigam a fechar muitos meios, e a falta de diversidade enfraquece a liberdade. O poder político e os cidadãos parecem alheios a esta realidade, e demonstram-se cada vez menos críticos e desinteressados.
Ana Oliveira, 22 anos, estagiária no jornal Expresso, mostra-se preocupada em "escrever algo desfavorável sobre um grande anunciante ou grupo de comunicação", pois pode sair prejudicada.
A recém-licenciada afirma que "ser jornalista e não estar disposto a defender a liberdade de imprensa, não faz sentido", por isso sente-se feliz ao saber que irá contribuir para fazer circular a informação.
O papel do jornalista passa pela defesa da liberdade de informação, defendendo também um modelo de sociedade. A liberdade que defende nãoésódele,édetodosetemum papel crucial nas sociedades, criando condições para os cidadãos tomarem decisões conscientes.









